Quando se pensa em cultura, logo vem à mente: arte, música, artesanato, costumes e hábitos. E pensar assim não é errado. A cultura envolve todos esses aspectos da vida humana e muito mais.

O objetivo aqui, no entanto, não é aprofundar no próprio conceito de cultura, mas entender que as sociedades, comunidades e civilizações têm culturas diferentes e que isso não significa que os costumes de outros países são melhores ou piores que os nossos, são apenas diferentes.

O antropólogo Roque de Barros Laraia defende que as culturas são diferentes em razão, também, das circunstâncias geográficas e biológicas, entretanto, a cultura pode ter sua lógica própria e é, ao mesmo tempo, viva e dinâmica.

Ou seja, por mais que os hábitos sejam determinados, em certa medida, pela biologia e pela geografia, a cultura de um povo nunca será submetida a regras fixas.

Somos diferentes, agimos diferentes e certos costumes nos causam estranheza num primeiro momento.

E é sobre isso que falaremos neste texto. Mas não se preocupe, a estranheza passa e o conhecimento fica. Afinal, entender os costumes de outros países é fundamental para conhecer melhor o mundo em que vivemos.

5 costumes de outros países que são muito diferentes do Brasil

1. Gastronomia para todos os gostos

Se você acha que já comeu de tudo e de todas as formas, se prepare para conhecer hábitos alimentares que, talvez, você nunca imaginou existir.

Caracóis

Em Portugal, por exemplo, caracóis são verdadeiras iguarias e a forma de preparo é bem diferente. Uma receita típica dos nossos colonizadores conta com caracóis que ficam em jejum por alguns dias e depois são fervidos lentamente em água com temperos e azeite.

Os moluscos terrestres, como são conhecidos os caracóis, são consumidos como aperitivos pelos portugueses e fazem muito sucesso no verão. Esse petisco é bastante rico em proteínas.

Cangurus

Sabia que o animal mais conhecido da Austrália é também um dos mais consumidos por lá?

E não se trata de um costume novo. O hábito de comer cangurus foi iniciado ainda com os aborígenes. Eles cortavam o animal em vários pedaços e comiam sem cozinhar.

Com o passar dos tempos e com o refinamento da gastronomia, o canguru passou a ser cozido no vapor e temperado com sal e pimenta. O bacon é servido como acompanhamento. Interessante é que tudo é aproveitado no Canguru, inclusive o rabo, que é usado para fazer sopa.

E para quem pensa que esse gosto é só para alguns, está enganado. Em todo o país é servido a carne do canguru; de pizzarias a hotéis. A carne do mascote australiano é comparada à do avestruz por ser de coloração bastante avermelhada e de gosto forte.

Cachorros

Não são apenas os australianos que consomem animais que passam longe do cardápio dos brasileiros. Em alguns países da Ásia, o cachorro é um alimento considerado fonte de energia e até afrodisíaco para os homens.

A carne de cachorro, é comumente usada para o preparo de sopas, que levam bastante temperos como açafrão, cravo e canela.

A venda da carne desse animal é proibida na maioria dos países asiáticos, porém, ainda é muito consumida em países como Coréia do Sul (onde a fiscalização faz vista grossa para essa prática), Hong Kong e nas regiões do sul da China.

Besouros

Dos mais de 190 países filiados à ONU, em pelos menos 120, insetos são considerados alimentos comuns na cozinha do dia a dia. Em todo o mundo, cerca de 1400 espécies de insetos são consumidos. Sabe quem é o campeão? O besouro.

Na cadeia alimentar dos seres humanos, a cada 10 tipos de animais consumidos, oito são insetos. E destes, cinco são besouros.

Exceto o exoesqueleto, ou seja, a casca, todo resto do besouro é consumido. Dependendo da dieta desses insetos, que pode variar entre tronco de árvores, raízes, seiva ou folhas, eles podem ser muito ricos em gorduras insaturadas, minerais e vitaminas.

2. A moda de cada um

O mercado de cosméticos e produtos de beleza é um dos que mais crescem no mundo. Enquanto no Brasil as mulheres não vivem sem o demaquilante, produto usado para retirar a maquiagem, no Japão, uma tendência de beleza é deixar o rosto como se a pessoa tivesse passado horas em uma festa ou a noite toda acordada.

Diversas it girls orientais estão gravando tutoriais ensinando como fazer esse make e ficar com os olhos inchados e o cabelo bagunçado, por exemplo. As defensoras dessa nova moda dizem que o objetivo não é deixar a pessoa com a aparência de cansada, mas dar um toque angelical e inocente para o rosto.

Túnicas e afins

Não dá para falar de vestimentas sem citar as roupas usadas pelos adeptos da religião islâmica. Apesar das diferenças com a moda ocidental, as roupas usadas pelos islâmicos e árabes são complexas e cheias de significados. Essa religião não permite que seus fiéis mostrem algumas partes do corpo e, por isso, as roupas não podem ser transparentes ou delinear o corpo.

E para quem pensa que essa cultura se resume a turbantes e túnicas, pensou errado. São diversos tipos de roupas usados em diferentes ocasiões. Conheça algumas peças comuns entre os islâmicos e árabes:

  • Icharb: túnica feminina com lenço que deixa apenas o rosto descoberto;
  • Xador: veste que cobre todo o corpo com exceção dos olhos;
  • Burqa: versão mais radical do xador que cobre até os olhos;
  • Abaya: capa grande de lã, utilizada também para proteger do sol;
  • Cirwal: uma calça larga que é usada por baixo da túnica;
  • Tarbush: chapéu de pano ou feltro usado junto ao turbante;
  • Ihram: duas toalhas brancas usadas durante a peregrinação à Meca.

Pés de lótus

Graças aos direitos humanos e a evolução do pensamento, hoje, a moda conhecida como pés de lótus não existe mais. Mas vale a pena conhecer um pouco dessa antiga cultura oriental.

No século X, na China, as mulheres passaram a amarrar os pés com ataduras e calçar sapatos com números bem menores que o tamanho do pé. Foi uma cultura imposta silenciosamente para mostrar quem eram as “boas esposas” e para “seduzir” os maridos.

Entretanto, essa moda também foi usada como forma de manter as mulheres sentadas por longas horas trabalhando.

A moda acabou virando uma espécie de opressão feminina. O processo de diminuição do tamanho dos pés começou a ser realizado com crianças, que aos seis anos de idade tinham seus dedos quebrados e dobrados junto a sola do pé para diminuir o tamanho.

Em 1911, o pé de lótus foi proibido pelo Governo Chinês. Algumas mulheres que passaram por esse processo ainda estão vivas e acabam aparecendo em reportagens sobre o assunto. Em alguns museus na China, é possível encontrar referências a essa cultura e conhecer um pouco mais dessa antiga e extinta prática.

3. O hábito faz o frei

Diversos rituais pelo mundo têm o objetivo de limpar o corpo e a alma das impurezas. Na China, eles usam um método nada convencional para se livrar delas.

Para isso, os Chineses cospem no chão! Pode ser em um elevador, no restaurante, no avião, no velório, em casa, enfim, em qualquer lugar mesmo.

Dedos mortos

A tribo Dani, nativa da Indonésia, tem um costume para lá de diferente e doloroso para homenagear seus mortos.

Para cada membro da família que falece, as mulheres são mutiladas com o corte de uma parte de um dos dedos da mão. A parte do membro que será arrancada é amarrada para adormentar e depois cortada e cauterizada. Na crença deles, esse ato acalma os espíritos e simboliza a perda do ente.

Autoflagelação

No dia conhecido como Ashura, 10º dia do Moarrão no calendário islâmico, os xiitas praticam uma espécie de autoflagelação com chicotadas nas costas. E não é um simples chicote de cordas. Para esse ritual, eles usam lâminas afiadas presas por correntes ou cordas.

A prática causa diversos cortes e muito sangramento. O ritual é realizado em homenagem a Imam Hussein, neto de Maomé, que foi morto no século VII durante a batalha de Karbala.

Em 2018, o Ashura será celebrado entre o início da noite do dia 20 de setembro até o início da noite seguinte.

Tempo, amigo velho

Há diversos costumes de outros países que envolvem a passagem do tempo. Os muçulmanos, talvez sejam o povo mais sincronizado com o relógio em todo universo.

Quase todo mundo sabe que eles oram diversas vezes ao dia. Mas não é apenas fazer várias orações, elas precisam acontecer em determinados intervalos de tempo e na posição certa. Sempre virado no sentido da cidade de Meca, os islâmicos devem orar ao amanhecer, depois das 12 horas, entre o meio dia e o pôr do sol, imediatamente depois do pôr do sol e uma hora após o entardecer.

Já na Etiópia, um velho costume também envolvendo o tempo é bastante interessante. Como nós, eles dividem o dia em dois intervalos de 12 horas, entretanto, lá, o dia começa oficialmente às 6:00. Ou seja, quando nosso relógio marca 7:00 da manhã, o deles marca a primeira hora do dia. E quando nosso relógio chega às 18:00, eles ainda estão no meio do dia (12 horas).

4. Festas não convencionais

O Testy Fest, com certeza, é um dos festivais mais diferentes do mundo. Uma vez por ano os moradores da cidade de Clinton no estado de Montana (EUA) celebram a fertilidade usando os testículos como símbolo maior.

Entre diversas atividades, que inclui até corrida de triciclo com homens de cueca, a principal atração é o concurso que elege o maior comedor de testículos da América.

Cada participante tem quatro minutos para devorar a maior quantidade possível do aperitivo.

No alto da montanha

Imagine vários homens escalando uma montanha feita com uma armação de ferro e coberta por pãezinhos. Pode não fazer sentido nenhum para você que é brasileiro, mas para os habitantes de Hong Kong é uma celebração cultural das mais importantes.

Pois é, o mundo é realmente bem diverso. O Cheung Chau Bun Festival acontece em Hong Kong e celebra a divindade que salvou a cidade há mais de 100 anos de uma praga.

Além da disputa para ver quem pega mais pãezinhos em três minutos, o festival conta com desfile de crianças “voadoras”, acrobatas e outras atrações bem diferentes.

Santa da ressurreição

Na cidade de Neves, na Espanha, todos os enfermos à beira da morte ou pessoas condenadas por uma doença grave são levados em procissão dentro de um caixão para a igreja.

A Procissão de Santa Marta de Ribarteme acontece todos os anos no mês de julho e celebra Santa Marta, a padroeira dos ressuscitados em Portugal.

Os doentes e enfermos prestes a morrer são levados em caixões pelos parentes para um cemitério e depois conduzidos para uma igreja para a celebração de uma missa por suas almas. O gesto simboliza a “volta” ao mundo dos vivos. Depois da missa as pessoas saem para celebrar, divertir e dançar.

5. O outro lado da moeda

Já dizia o velho ditado: “de médico e de louco todo mundo tem um pouco”. Esse talvez seja um dos poucos pontos em comum entre os costumes de todos os países.

O filósofo Tzvetan Todorov, falecido no ano passado, defende em seu livro “A conquista da América — a questão do Outro” que, à primeira vista, a diferença é sempre recebida como algo estranho e, muitas vezes, errado e inferior.

No entanto, cada cultura, a seu modo, faz todo sentido para aqueles envolvidos nos seus processos.

Vejamos um costume brasileiro que é bem estranho em outros países: comer abacate com açúcar! Pode parecer normal para você, mas em praticamente toda América Latina e em alguns países da Europa, isso é quase inconcebível.

Outro exemplo: cumprimentar as pessoas com um beijo no rosto é tão estranho para alguns países como é para nós o costume dos homens árabes andarem de mãos dadas pelas ruas.

Em tempos de luta contra todo tipo de preconceito, toda ação é válida. Compartilhe em suas redes sociais a diversidade cultural que você acabou de conhecer e, em sua próxima viagem, veja o mundo com outros olhos.