Um sinal sonoro toca, como se fosse uma campainha, e em todos os corredores se acendem as luzes que indicam a obrigação de afivelar os cintos. Das caixas de som no teto, uma voz anuncia: “Senhores passageiros, estamos passando por uma área de turbulência. Pedimos que permaneçam sentados e com os cintos afivelados”.

Para alguns, essa frase é recebida com serenidade e as instruções são seguidas sem grandes problemas. Para outros, escutá-la pode trazer certa ansiedade e até medo.

Mas o que de fato ela significa? O que causa a turbulência? Os passageiros realmente devem se preocupar quando escutam esse alerta vindo da cabine do comandante? É o que vamos discutir neste texto. Acompanhe!

O que é a turbulência?

A turbulência, em termos físicos, nada mais é do que um movimento agitado e instável de um fluido. No caso das aeronaves, esse fluido é o próprio ar.

Há uma série de fatores que podem contribuir para a formação de um movimento turbulento. Por exemplo, alterações de parâmetros físicos como a temperatura, a velocidade e a pressão.

Como ela ocorre?

Na verdade, existem diversas causas possíveis para a turbulência. Neste post, vamos falar sobre as mais frequentes e mostrar quais são os mecanismos capazes de gerá-las.

Nuvens de chuva

Também conhecidas como “nimbostratus”, as nuvens de chuva são uma das causas mais comuns de turbulências. No interior delas há uma variação tão grande de velocidade e pressão que são criados redemoinhos. Eles podem acabar dificultando a estabilidade da aeronave, gerando os indesejáveis tremores sentidos durante a viagem.

Massas de ar quente

Nesse caso, o Sol aquece a superfície da Terra e o ar que está sobre ela, o ar atmosférico. Isso faz com que as massas de ar se expandam e se movam para cima, criando uma espécie de “corrente”.

A partir desse ponto, dois cenários são possíveis: no primeiro, se o ar estiver úmido, uma nova queda na temperatura pode criar uma condensação dessa umidade e formar nuvens — as “cumulonimbus”. Na verdade, essa situação é positiva, porque ela permite visualizar a atividade ascendente da corrente de ar.

Mas nem sempre o ar que sobe tem partículas de água, e é aí que está a “pegadinha” que gera o segundo dos possíveis cenários. O ar sobe sem dar nenhum sinal visual, e pode pegar todo mundo de surpresa.

Nesses casos, as turbulências costumam ser um pouco mais incômodas, porque os pilotos não conseguem se preparar com grande antecedência. Chamamos isso de “turbulência de céu limpo”.

Outras aeronaves

Esta é outra causa relativamente comum de turbulência. Quando uma aeronave passa por algum lugar, ela muda a velocidade dos ventos, criando atrás de si o que chamamos de “esteira de turbulência”. Esse efeito é semelhante ao que observamos em navios quando eles “riscam” as águas.

Esse fato exige atenção redobrada dos controles de voo, em especial durante pousos e decolagens, quando há várias aeronaves se deslocando ao mesmo tempo.

Correntes de jato

Tratam-se de correntes de ar provocadas pela combinação da rotação da Terra e o aquecimento da atmosfera. São extremamente rápidas, podendo atingir velocidades de até 350km/h. Na maioria das vezes, elas “correm” de Leste para Oeste aqui no Hemisfério Sul (o contrário vale para o Hemisfério Norte).

Dependendo do trajeto a ser realizado, os pilotos podem tirar proveito desse aumento de velocidade, ou desviar da corrente. A parte complicada é que essas correntes podem subitamente mudar de direção se houver uma alteração muito brusca de pressão. É nessa mudança que sentimos as turbulências.

Montanhas

As montanhas são outras causas possíveis de movimento turbulento. Quando uma corrente intensa de vento “colide” com uma cordilheira alta, o ar pode ser redirecionado para cima e causar tremores nas aeronaves que estão passando pelo local atingido.

Construções muito altas, como prédios e torres, também podem ser capazes de causar esses deslocamentos de vento.

Aquecimento global

Alguns estudos realizados por pesquisadores britânicos indicam que as turbulências podem se tornar comuns e mais fortes no futuro. Ao que parece, o aumento gradativo das temperaturas globais seria capaz de intensificar os fenômenos associados à ascensão de massas de ar, assim como as correntes de jato.

Segundo o modelo testado pelos cientistas, a frequência de turbulências pode aumentar entre 40 e 170 por cento.

O que os pilotos fazem quando isso acontece?

Antes de assumir a responsabilidade de um voo, os pilotos estudam muito bem o trajeto e as previsões meteorológicas. Durante o trajeto, eles também estão em permanente comunicação com outras aeronaves e centrais de controle que, por sua vez, informam as condições de voo em tempo real com a maior precisão possível. Também ficam constantemente atentos ao radar do avião.

Ao detectar uma região de possíveis turbulências, o piloto decide como agir diante da situação. Ele pode optar por fazer um pequeno desvio de trajeto, caso isso seja possível, ou pode escolher passar pela região turbulenta, adaptando a aeronave.

Em geral, essa adaptação é feita reduzindo a velocidade e alterando a posição dos flaps (aquelas partes móveis) das asas. Assim, é possível minimizar os efeitos da turbulência e garantir a segurança da viagem.

Você precisa se preocupar?

A resposta curta é: não! Mas separamos abaixo alguns motivos e conselhos para você ficar bem tranquilo durante as eventuais turbulências da sua viagem.

Equipe treinada

Em primeiro lugar, tenha em mente que os pilotos de avião, assim como toda a tripulação de comissários de bordo, são altamente treinados e preparados para lidar com quaisquer problemas que apareçam.

Voar é seguro

Durante uma turbulência, isso pode até não parecer verdade. Mas o fato é que o avião é o meio de transporte mais seguro que existe hoje em dia! As vias aéreas são infinitamente menos perigosas que as rodovias, por exemplo. Dessa forma, não é necessário entrar em pânico.

Os riscos oferecidos pelas turbulências são mínimos. Para você ter uma ideia: as chances de uma turbulência causar um acidente aéreo são de 1 em 60 milhões. Essas movimentações são eventos tão normais quanto os solavancos no seu carro causados por uma lombada, ou ondas sentidas quando navegando pelo mar.

As turbulências fazem parte do voo, e podemos dizer que elas são tratadas mais como uma questão de inconveniência do que de segurança. Ou seja, o único perigo que elas oferecem é em relação ao conforto dos passageiros.

Informe-se

Muitas pessoas sentem medo quando olham pela janela e observam as asas da aeronave se retorcendo de modo flexível, como se estivessem “moles”. Mas isso é mais que normal, é o que se espera das asas de um avião. Elas são projetadas para se dobrarem até um ângulo de 90 graus! Isso serve exatamente para impedir que elas quebrem.

Às vezes, alguns passageiros que passaram por experiências de turbulência intensa dizem que parecia que o avião estava em “queda livre”. Mas é apenas uma impressão, porque mesmo uma turbulência longa (que dificilmente vai durar mais do que cerca de 4 minutos) não é capaz de desviar o nariz do avião por muito mais do que 10 metros.

Algumas pessoas ficam com medo depois de verem vídeos de turbulências fortes, notícias sensacionalistas e filmes que exageram esses eventos. Turbulências intensas a ponto de causar danos preocupantes em uma aeronave são um evento raríssimo, por isso não fique assustado! Sempre receba essas informações com um bom filtro crítico.

Mantenha a calma

Mesmo sabendo que as turbulências não são motivo para grandes preocupações, muitas vezes o medo é incontrolável, e fica difícil tratar do assunto racionalmente. Então, vamos dar algumas sugestões de como lidar com a situação. Acompanhe!

Escolha o lugar certo

Se você tem muito medo dos tremores, recomendamos que opte por poltronas um pouco mais próximas do meio do avião, logo acima das asas. O eixo de gravidade vai fornecer maior estabilidade nessa região da aeronave, e os solavancos vão ser menos intensos do que seriam nos assentos do fundo, por exemplo.

Cheque você mesmo

Também é possível verificar a previsão de possíveis turbulências no trajeto do seu voo, usando sites como o TurbulenceForecast. Dessa maneira, você já pode ir preparado, sabendo o que esperar durante a sua viagem.

Tente se distrair

Em especial nos voos longos, as companhias costumam oferecer algumas formas de entretenimento, como filmes ou música, mas você mesmo pode levar sua própria distração.

Ter à mão algumas formas de entretenimento costuma ajudar bastante. Pode ser um bom livro, o seu programa favorito de TV ou uma música que te ajude a se acalmar, por exemplo.

Respire fundo

Exercícios de respiração podem minimizar os efeitos da turbulência no corpo e fazer com que você mantenha a calma enquanto ela durar. Outra atitude simples que pode ajudar bastante é tirar os pés do chão para minimizar a sensação de movimentação brusca.

Confie no cinto

Também vale lembrar que é sempre recomendável que o seu cinto esteja afivelado, pois essa é a maneira mais segura de viajar! Entre as pouquíssimas ocorrências de ferimentos causados por turbulências, a maioria ocorre com comissários de bordo, exatamente porque eles ficam a maior parte do tempo em pé, andando pela aeronave. Os pilotos, por exemplo, quase nunca se machucam, já que sempre estão sentados e de cinto.

Como a tecnologia pode ajudar?

Muita coisa na aviação mudou desde que Santos Dumont, em um ato pioneiro, sobrevoou uma planície parisiense em 1906. Conheça agora algumas inovações tecnológicas que podem ajudar na questão das turbulências.

O “Waze dos ares”

Nos dias atuais, a tecnologia pode auxiliar, e muito, a reduzir os efeitos das turbulências. Algumas aeronaves já contam com equipamentos como sensores que captam informações durante uma turbulência, medem os seus parâmetros físicos e automaticamente distribuem os dados coletados para outras aeronaves.

Dessa forma, ao receber a informação, o piloto pode alterar a rota caso seja necessário. É como se os comandantes tivessem o seu próprio Waze aéreo!

Antes disso, esse tipo de informação era transmitida via rádio pelos próprios pilotos. O problema nesse caso estava nos relatos pouco específicos e bastante subjetivos de piloto para piloto.

Por exemplo, uma turbulência que parece “leve” para um piloto, não necessariamente seria vista da mesma forma por outro. Esse tipo de equipamento, por ser objetivo e automático, resolve o problema.

A evolução do radar

Os radares também evoluíram bastante desde que foram inventados por Christian Hülsmeyer, em 1904. O que antes era um dispositivo de baixa precisão, de difícil construção e com um sistema ineficiente, hoje consiste em um maquinário que aumentou exponencialmente as suas capacidades e raios de detecção.

O uso de lasers

Outro exemplo de avanço tecnológico nesse sentido é o implante de detectores a laser no nariz do avião. A Boeing já está testando esse recurso, que consiste na emissão de pulsos de laser capazes de determinar condições meteorológicas em uma distância de até 17,5km.

Isso pode fornecer tempo suficiente para os pilotos tomarem as medidas necessárias e alertarem os passageiros para que tomem cuidado com aquele café quentinho que acabou de ser servido.

A tecnologia de satélite

Lançado ao espaço em novembro de 2016 pela NOAA — National Oceanic Atmospheric Administration (Administração Atmosférica e Oceânica Nacional, em tradução livre) — o GOES-R é tido como o satélite meteorológico mais avançado do mundo.

Capaz de “escanear” os céus cinco vezes mais rápido do que satélites antigos e de gerar imagens com quatro vezes mais qualidade, o GOES-R torna possível um monitoramento simultâneo e extremamente preciso das condições de voo. Isso auxilia, e muito, o planejamento dos pilotos.

E não para por aí! Esses são apenas alguns exemplos de diversas técnicas desenvolvidas ao longo do tempo.

Apesar de as turbulências não representarem um perigo à integridade física dos passageiros ou da tripulação, as companhias aéreas querem que os seus clientes se sintam confortáveis e tranquilos. Elas procuram corrigir e minimizar até mesmo essas inconveniências inofensivas, por isso as pesquisas aplicadas à tecnologia aeronáutica não param.

Quem sabe não chegará o dia em que os tremores causados pelas turbulências serão coisa do passado?

Esperamos que este post tenha esclarecido as suas dúvidas sobre as turbulências, e que essas informações te deixem um pouco mais tranquilo na próxima vez que for pegar um voo.

E você? Já teve alguma experiência com turbulências? Tem alguma sugestão para lidar com elas? Deixe o seu comentário!